"Imitando
a televisão com catapora"
Entrevista
com Ida Feldman
Em visita aos estúdios da
Brócolis VHS, a videomaker concedeu-nos gentilmente esta entrevista.
Saiba mais sobre os vídeos e as idas e vindas de Ida Feldman!
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Quando e como você chegou no vídeo?
Há uns dez anos, meu pai comprou uma câmera e uma ilha de edição para
mim. Infelizmente eu não tenho mais isso, porque entraram uns ladrões
na minha casa e levaram tudo. Também isso faz muito tempo, é uma outra
história... Mas eu tinha essa câmera e ilha de edição e era uma desempregada.
Então o que eu fazia nas minhas tardes? Eu colocava a câmera e ficava
dançando, pondo peruca, interpretando, gravava uns amigos, ou eu mesma
inventava alguma coisa. Quando eu estava com catapora, depois de velha,
cheia de pintinha e não tinha o que fazer, eu punha a câmera e ficava
dublando o Merlin. Era a coisa mais ridícula do mundo! Ou então eu ficava
dublando o que a televisão falava, imitando a televisão com catapora,
tipo o Francisco Cuoco falando com não sei quem. Isso foi uma coisa normal,
porque meu pai era cineasta e fotógrafo (Aaron Feldman).
Então eu sempre tive câmera, senão de vídeo porque isso demorou um pouco
para acontecer, mas eu sempre tive câmera fotográfica e brincava com isso.
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Como
você faz seus vídeos?
Em geral, eu tento fazer coisas que me vêm na hora, sem roteiro.
A primeira vez que alguém me falou: "faz um roteiro" ou "vamos fazer um
espelho", eu falei: "porra, eu não trabalho assim!". Eu trabalho assim
no meu trabalho e eu não quero trabalhar desse jeito fora dele. A gente
fez um vídeo de S&M, que está parado, e a pessoa
queria enquadrar tudo! Eu acho que as coisas têm que ser meio caseiras
mesmo. Super produção faz esse pessoal do
Rio de Janeiro, que é tudo uma panela, o vídeo é uma bosta mas eles têm
nome. Ele fazem super produção, a Petrobras paga. Se quiser, também pode
ser assim. Meu pai fazia vídeo meio nas coxas, então eu aprendi a fazer
com o que você tem, do jeito que você quer. Meu pai fazia roteiro, por
exemplo, mas eu não acho legal fazer... perguntem senão eu não paro de
falar.
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Como surgiu o vídeo "Pica de Borracha" (1997)?
Eu fiz 30 anos e fiz uma festa de aniversário. E eu sempre gostei
muito de bonecos, brinquedos e tal. Aí eu
falei que ninguém precisava levar comida, bebida, nada; eu ia cuidar disso,
mas queria ganhar um boneco e 90%
das pessoas me deram algum brinquedo. Só
que uma me deu um ácido e eu tomei, não foi a primeira vez nem
foi a última, mas isso tanto faz. Tomei e me diverti bastante, e depois
da minha festa a gente foi para outra, after hours. Mas lá estava
chato e aí a gente voltou para casa. Todo mundo foi dormir, todo mundo
estava com sono, morto. Mas eu não, fiquei lá fritando. Você toma um ácido
e não consegue dormir, rola pra lá e pra cá, fica a milhão. Então eu peguei
a mesma câmera que a gente tinha feito o vídeo na festa, coloquei ela
em frente à cama e fiquei lá falando um monte
de porcaria, tudo o que me vinha na cabeça. E eu não pensei: "vou fazer
esse vídeo para passar num festival". Vou fazer um vídeo porque eu não
tenho o que fazer, vou fazer um vídeo para ver se me canso e consigo dormir.
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No
dia seguinte, eu falei: gente, vamos assistir o vídeo que fiz". Aí todo
mundo assistiu e falou: "Nossa! Isso é muito bom, Ida!", "Você estava
ridícula!". E eu achei legal. Ia mostrando para outras pessoas e as pessoas
iam gostando. Bom, então já que é desse jeito... eu sei que a gente pegou
o vídeo, editou e mandou para o Mix Brasil e Videobrasil, e ele foi selecionado.
Mas esse vídeo tem um problema grande de áudio, porque eu fiz com som
direto, não tinha microfone, então ficou uma barulheira, tem que ouvir
muito no alto, não tem legenda e eu não tinha dinheiro para pôr legenda
na época. E o "Pica de Borracha" foi para o Videobrasil mas nem foi votado,
porque os caras eram todos gringos e também porque eu não sou da panela,
não é? Mas tudo bem, eu hei de vencer! No Mix Brasil eles me aceitam direitinho,
então não precisa ser da panela de lá, eu sou de outra panela. E assim
rolou esse vídeo, não foi de propósito, foi sem querer. Foi de uma idéia
que eu tive na hora.
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E como foi esta experiência de ficar diante da própria câmera?
Não tenho problema nenhum com isso, principalmente se estiver
sozinha, e louca de ácido, muito melhor. Foi muito fácil, foi simplesmente
falar o que eu estava querendo falar. Todos estavam dormindo
e eu queria falar, falar e inventar coisas, pois quando eu tomo ácido
eu fico completamente criativa.
Se já sou, fico muito mais. Eu tendo a ficar muito legal ou
até do mal em épocas. Bem, não do mal, mas eu fico sacaneando
as pessoas, aprontando um monte de coisas, tem vários tipos de viagem.
E falar para a câmera foi um desabafo daquilo que estava rolando: "eu
não tô com sono, eu tô louca, não sei o que fazer, então vou ler a lista
telefônica...". Normal! Seria o meu normal só que com uma droga na cabeça.
Eu faria aquilo normalmente com os amigos, só que como não tinha com quem
falar, eu falava para a câmera.
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Você
fez outros vídeos auto-referenciais depois do "Pica de Borracha"?
Eu tenho um outro vídeo, depois do "Pica de borracha", que
é o "Banheiro de Ida Feldman". São 32 cenas dentro do banheiro de minha
casa, e em uma das cenas estou eu. Cada
pessoa no vídeo faz alguma cena diferente da outra: uma se
masturbou, outra beijou na boca do namorado,
outro só costurou, outro não sei o quê... E eu gosto tanto de aparecer
que enfiei um OB na boceta sem estar menstruada. Seca, sabe?! Doeu mas
ficou engraçado eu com as pernas levantadas colocando OB com uma tiara
de Mickey, que eu tinha na época, e com um vestidinho ridículo também.
Eu apareci nisso e também na última cena, onde quase todo mundo que participou
faz uma festa no banheiro. Então é uma coisa "Hitchcock" na minha vida.
Meu pai já brincava de aparecer nos filmes e vídeos que ele fazia. Eu
acho isso legal.
Eu
fiz um vídeo, que ainda não foi editado, e eu apareço nele fazendo cenas
de S&M e as pessoas não acreditam que sou eu aquela lá, que eu dei a cara
para bater no meu próprio vídeo. Tem uma cena muito engraçada que é eu
amarrada na árvore e a menina me batendo e eu morrendo de calor, tendo
pressão baixa, porque é muito quente apanhar, entendeu?! É um calor danado!
Eu falo: "Pára pelo amor de Deus", aí vem alguém com um copo de
água com sal para aumentar a pressão. Muito engraçado! Eu acho legal aparecer.
Talvez, se eu tivesse uma câmera de vídeo em casa, eu faria mais coisas
comigo falando. Ah, eu também gosto de fazer vídeo de eu fazendo bolo,
eu já fiz alguns. Eu fico ensinando a receita, mas são coisas que
eu não mostro porque é pessoal. Uma vez, fiz um vídeo em que eu estava
sentada no sofá conversando, só que eu pus a câmera como está esta aí,
parada, e achei que estava sendo enquadrada mas não estava. Então é o
sofá conversando e fumando, uma fumaça verde saindo do sofá, e ele falando
sem parar, mas não era o sofá, era eu. Ou então, eu chegava do trabalho
de manhã (eu trabalhava na época à noite), ligava a câmera e falava um
monte de coisas: "Ah, tô com insônia, tem uma construção aqui do lado,
tá o maior barulho". Desligava a câmera, relaxava e ia dormir. Normal,
isto é muito normal. Apesar de quando eu vou às vezes em um programa de
TV para dar entrevista sobre tatuagem, boneco, ou seja lá o que eu colecione,
e até sobre vídeo de vez em quando, eu acabo ficando meio com medo. Não
é medo, é, sei lá... Eu acho que sozinha na minha casa é uma coisa, com
uma equipe me olhando são outros quinhentos, entendeu? É aquela história
do pau duro: o cara consegue ficar com o pau duro no banheiro batendo
punheta, mas com um monte de gente fotografando ele para revista, aí ele
fica... vai precisar de um boquete. Então, volta e meia eu tremo, gaguejo,
fico torta, eu olho depois no programa e falo: "Puta merda isso está torto,
hein?! Você tremeu, não respondeu direito. Em pouquíssimas situações eu
fico na boa.
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Pode-se dizer que o "Pica de Borracha" é um auto-retrato em vídeo?
É, não deixa de ser, do mesmo jeito que eu não tenho agora
uma câmera de vídeo e eu tenho uma câmera digital e fico tirando um monte
de foto. Não deixa de ser auto-retrato. Talvez uma coisa boa de ressaltar
é que há uma tendência mundial das pessoas aparecerem
nos próprios vídeos; as pessoas se deixando
entrar na vida delas. Começou com o "Truman Show", que é um filme maravilhoso,
fui até comparada com ele! E agora tem a "Casa dos Artistas", que está
mais na moda impossível! Então, é esta coisa das pessoas mostrarem como
elas são, "a vida como ela é..." Aqui, no caso, é a Ida como ela é: com
o cabelo qualquer nota, sem maquiagem (e na televisão eles adoram maquiar
as pessoas, maquiar em todos os sentidos...). E aí tem essa tendência:
a MTV fazendo "na real"; Hollywood fazendo o filme da pessoa que não sabe
que está sendo gravada o dia inteiro; esse tal de "Big Brother", etc.
Não sei se isto pode uma hora enjoar e ninguém falar nisso, mas eu acho
que pararam de fazer tantos vídeos de conceitos, ficar mostrando paisagem...
acho bonito também, mas eu não tenho saco para assistir! As pessoas querem
saber da vida das outras pessoas, isso prende as pessoas! E eu acho que
isso tem uma relação com as pessoas quererem se mostrar, aparecer, e se
deixarem mostrar. E vai ver eu já estava sintonizada com isso há algum
tempo; meu pai estava; não sei que já estava... Tem que ter um interesse
humano, a gente sempre está interessado na vida dos outros e, em geral,
você sempre convive, relaciona, quer saber: "O que será que a vizinha
ali está fazendo?". Sempre está de bituca na vida dos outros. É uma coisa
que é legal: contar uma estória sobre alguém, um ser humano, gato, cachorro,
sei lá... E agora você pode chegar mais perto da realidade daquela pessoa,
que não é uma mentira. Eu não estou inventando um personagem, eu estou
sendo eu mesma ou alguém está sendo ela mesma. Mesmo com um pouco de armação,
isso é mais legal: você vê como as pessoas são.
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Seus vídeos, em geral, caracterizam-se pela temática sexual e pelo humor.
Como é isso?
Eu não sei porquê acabei caindo no sexo, talvez porque eu seja
mais despachada com o sexo, não intimamente, mas para falar. E acho que
por trabalhar em um site de sexo há uns bons
quatro anos, acaba sendo que eu tenha que falar sobre
homossexualidade, sexo, e,
de certa forma, mostrar para as pessoas que isto não é nenhum bicho...
Não sei se isso tem vindo comigo há muito tempo ou se está aí por essa
história de trabalhar no site do Mix Brasil, estou tentando pensar nisso...
Mas, na verdade, eu sempre fui de mostrar piercing, boceta, mostrar peito...
Eu durmo pelada há muito tempo, ando sem calcinha na boa. Se eu pudesse,
eu não usava calcinha nunca, até porque, de acordo com uma amiga minha
(a Regina), um dia eu posso sem querer escorregar e cair, no meu trabalho,
com as pernas abertas... e vai pegar muito mal para mim. Considerando
isso, ela realmente tem razão. Eventualmente, quando fico assada, eu tiro
a calcinha... mas eu tenho andado, geralmente, de calcinha. Mas no fim
de semana, no supermercado, eu vou sem calcinha. Eu fico o dia inteiro
pelada, a primeira coisa que faço quando chego em casa é tirar a roupa.
Então eu acho que tenho uma relação boa com isso, mesmo com um pouco mais
de gordura eu não demoro muito para tirar a roupa. É normal, entendeu?
Ficar pelada, mostrar... Eu tenho dois piercing na boceta e um em cada
peito, então volta e meia eu tenho que mostrar isso. Claro que se na televisão
pedirem eu não vou mostrar, primeiro porque eu trabalho na televisão,
então eu não vou ficar mostrando a minha boceta para todos os câmeras
para depois eles falarem: " Ah, aquela menina...". Porque às vezes aparece
na revista e eles já ficam falando... se eu mostrar ao vivo, então...
Também eu acho que é uma falta de respeito comigo, não é? E o humor faz
parte, apesar do meu nervosismo, de brigar com as pessoas e tal, ele faz
parte da Ida. É dentro do pacote Ida.
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Recado
final para nossos leitores?
Ás vezes você trabalha na televisão e procura
crescer na televisão, botar as suas idéias na televisão...
eu não acho que é o lugar certo. Eu não acho que é na
televisão onde você vai mostrar o quanto você é.
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Se você já tem um pouco de vontade,
então pega uma câmera, faça um vídeo e mande para um
festival, que tem vários tanto
no Brasil quanto fora (e os de fora também querem pessoas). Eu tenho
uma lista que o Lucas Bambozzi
me mandou com vários lugares para você enviar seu vídeo. Não tem
só o Mix Brasil e Videobrasil no mundo...
Se alguém quiser, eu mando esta lista. E eu acho que se você tem vontade
de fazer, não dê suas idéias para outras pessoas: faça você mesmo, do
jeito que puder fazer! Se você não tem uma puta ilha, não tem câmera,
pega a do seu vizinho, do seu amigo, ou deixa ele mesmo ser o câmera,
sei lá... Mas faça seu vídeo! Todo mundo tem que fazer um vídeo, como
tem que plantar uma árvore, fazer uma criança, escrever um livro... Tira
o livro e põe o vídeo no lugar. A árvore você compra na Liberdade, no
domingo; o filho é por opção: se quiser faz, ou, então, tem um de pelúcia,
como é o meu caso. As pessoas tem que botar para fora! Faça seu vídeo
com os recursos que tiver. É isso.
Assista
um trecho de "Pica de Borracha" (230Kb)
Visite
o site da Ida Feldman:
http://www.idafeldman.hpg.com.br
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Brócolis VHS - 2002 l video homeless system l
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