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Entre
mortos e feridos, os vivos gravam a cena do MoViAJ
Por Gleber Pieiz - Jornal "'A Notícia". Joinville - SC - 29/08/2000 |
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Quem viu, viu; quem não viu, aguarde o próximo ano. Não que a Mostra de Vídeo Amador de Joinville (MoViAJ) tivesse sido uma maravilha logo na sua primeira edição, mas cumpriu o prometido: apresentar um panorama da produção nacional em uma cidade que, apesar de um volume significativo de trabalhos exibidos, ainda engatinha no assunto. Em quatro noites, com entrada franca, o anfiteatro 1 da UNIVILLE foi palco para a apresentação de 47 vídeos de cinco Estados e para uma discussão que merece ser aprofundada. Organizada por um heróico grupo encabeçado por Fabio Cascaes e Andréia Heinzen, a MoViAJ começou tímida na terça-feira, mas foi ganhando maturidade e formando um pequeno grupo de espectadores assíduos durante a semana. É uma pena que o debate tenha sofrido com a escassez de público e com a falta de uma linha que o impedisse de fugir do tema central: falou-se muito em cinema e quase nada em vídeo, objeto único da mostra. Ora, se produtores e aficcionados do vídeo não são capazes de sustentar uma discussão séria sobre esta forma de expressão sem descambar para o cinema, quem o é? Em todas as discussões, via-se referências aos trabalhos como "filmes" e discursos tentando buscar no cinema os critérios para avaliar obras em vídeo. Pelo menos os bons trabalhos dispensaram comentários desconexos e falaram por si. Na noite dedicada à ficção, brilhou a narrativa fragmentada, a boa produção e edição do joinvilense "Fim", a linearidade e o bom gosto na trilha sonora do ilhéu "As Botas de Clarice" e o escracho sem limites de "Sharhutt - O Cachorro Assassino", vídeo carioca com impagáveis créditos iniciais e uma das melhores propostas da mostra. Aliás, outro tema que faltou aos debates foi a definição dos limites entre os trabalhos que buscam a seriedade no vídeo e aqueles que não querem nem saber dela, optando pela gozação - duas linhas que não podem ser avaliadas pelos mesmos critérios. Vindo de Chapecó, "O Segredo do Mosteiro" é um destes trabalhos nonsense e, ao assumir essa condição com sinceridade, se destacou na segunda noite da mostra: parodiando "O Nome de Rosa", o vídeo propôs um mistério conduzido por risíveis diálogos dublados em inglês. Quem se leva a sério e se saiu muito bem foi "Carnaval nos Trópicos - O Desafio Estético", vídeo em P&B produzido em Cambuci (SP) que aposta em boas metáforas para ilustrar a situação do povo brasileiro, trabalho valorizado por edição e roteiro impecáveis que sai da mostra como a melhor obra apresentada, apesar da apatia do público que lotou o anfiteatro na quarta-feira dedicada aos documentários, vídeos experimentais e poéticos. Premiado em Gramado, "Irmãos Canozzi" é documentário feito em Itajaí que brilha nos quesitos técnicos, mas se perde no texto enfadonho. Na mesma noite os alunos de jornalismo do Ielusc deram um show de edição, embora tenham cometido pecados de reportagem imperdoáveis em "A Condição Sócio-econômica da Prostituição em Joinville", conjunto de relatos apresentados como documentário. Foi também na terceira noite que Leandro Vieira e Mariana Meloni se firmaram como os videomakers mais regulares da mostra. Sua produtora, a Brócolis VHS, foi responsável por momentos de genialidade e mediocridade extremas, ora surpreendendo com uma pesquisa de imagens amadurecida (caso de "Vídeo Futuro" e "A Incrivelmente Estranha História da Serpente Maricela e do Besouro Amanita"), ora decepcionando com uma colagem simplória de takes (como em "A Vida na Condição Pós-moderna"). Assumidamente apaixonado pelo vídeo, o casal trouxe a Joinville também suas produções de terror Z (onde aparecem fios de nylon e outras falcatruas cênicas) e seus vídeos rápidos, com destaque para a ironia de "Boca Livre". Na tela de sexta-feira, os vídeos de drama e comédia não saíram do nível mediano - quando não caíram a regiões abissais no quesito interpretação. Entre altas doses de pretensão e muita auto-referência, salvaram-se apenas a boa produção de "Memórias de um Taxista" (São Bernardo do Campo) e a proposta hilária de "Capitão Cometo" (Salvador). O nível do debate só cresceu nesta última noite graças, em parte, ao clima de "aproveite enquanto é tempo" que pareceu ter contagiado os participantes. Além de ter colocado em conceitos claros o que é vídeo e o que é cinema, o debate fez uma avaliação positiva da MoViAJ, levantou sugestões para a próxima edição e fechou a mostra com saldo positivo. Se depender do ânimo da equipe organizadora e dos espectadores fiéis, no ano que vem tem mais MoViAJ - em qualidade e quantidade.
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l Brócolis VHS - 2002 l video homeless system l |