"No vídeo o corpo se retalha"
Entrevista com Wilton Garcia

Clique aqui e assista um trecho de "Domênica" Wilton Garcia (1968, Belo Horizonte - MG) é artista visual e Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Aqui, ele fala sobre seus trabalhos, produção homoerótica no Brasil, corporeidade em vídeo e... leia mais!


Como e quando surgiu tua relação com o fazer vídeo?

Sempre gostei de imagem. Ainda que comecei a trabalhá-las mais velho, sempre admirei a possibilidade de realizar produtos visuais. Começou pelo cinema, que gosto muito, mas também sinto raiz pelas experimentações plásticas.

Você tem um trabalho substancial tanto no campo fotográfico quanto teórico. Como estas duas linhas convergem para a sua produção videográfica?
Acredito que aprendi primeiro a observar a imagem, mas sinto que para realizar isso de maneira possível deveria estudar os modos de produção da imagem. Interligo meu trabalho visual às armadilhas metodológicas apresentadas pelas abordagens teóricas. Na minha opinião, o vídeo remete à uma noção conceitual que amplia os efeitos da imagem e retiram do objeto sua capacidade de objetividade. A linguagem subjetiva, própria do vídeo, instaura e subverte um sistema contemporâneo provisório, fragmentado, parcial, inacabado e efêmero.

Na sua opinião, qual é o corpo do vídeo? Como a corporeidade se manifesta através do vídeo?
Diria que o corpo passa ser uma notável condição adaptativa que emerge as providências sobre os sentidos dessa contemporaneidade. O corpo, não seria um marco datado de uma marca, porém contribui para indagarmos sobre a complexidade que estamos vivenciando, inclusive se pensarmos que a ponta do pensamento sobre as perspectivas do universo digital está na biotecnologia. No vídeo, o corpo se retalha entre técnica e conteúdo, como se fosse uma metáfora do humano e não deveria ser considerado, especificamente, pela sua presença.

Fale sobre seus vídeos?
Meu primeiro vídeo foi "Antonio Marcos" (1999, 10', cor, VHS), um vídeo depoimento da drag queen Vitória Principal, lançado no VII MixBrasil - Festival da Diversidade Sexual. Nesse pequeno discurso a (des)construção da cena organiza um espaço de enunciação, em que a drag fala do seu cotidiano: família, aventuras, sexo, paixões, profissão, amizade. No meu ponto de vista, as subjetividades expostas no texto (visual e sonoro) implicam pensar as minorias. Já "unt I tled" (2000, 10', cor, S-VHS) foi uma produção coletiva entre ECA-USP e Nassau Community College - SUNY, e apresenta os limites de um amor não correspondido. Essa experimentação foi performatizada pelo bailarino Jorge Balbyns com texto de Rick Santos e cia. O procedimento não linear sobrepõe textos, imagens e áudio numa visão impactante que incorpora os efeitos sistematizando a dinâmica da cena.

Fale sobre "Domênica", seu trabalho mais recente?
Domênica (2001, 10', cor, DV) expressa o corpo contemporâneo e suas nuanças: uma ficção da (des)construção de uma identidade contemporânea, ao representar um corpo expandido. O conceito se reverbera num ritmo lento, que pontua uma imagem flutuante de sofrimento. O ensaio, da bailarina Vera Sala, traz o trabalho performático de uma intercorporalidade impactante. Em cena, a narrativa videográfica elege o banheiro, enquanto espaço discursivo. Esse movimento de (re)velação se desencadeia a partir da preparação de maquiagem - realce e/ou disfarce - numa transfiguração voluptuosa da imagem. A produção visual de Domênica nasce de um processo contínuo entre manchas e borrões, os quais num redesenhamento fotográfico se entrecruzam para apresentar um corpo contemporâneo. Diferente do que ocorre na produção sonora que privilegia o desencontro, tencionando uma marca de linguagem na configuração da mobilidade do traço, enquanto situação de contingência.

Como você vê o panorama atual da produção audiovisual de temática homoerótica no Brasil?
Estou finalizando minha tese de doutoramento sobre "Imagem & Homoerotismo" na ECA/USP, com bastante dificuldade de encontrar pessoas que assumam o que estão realizando, ou ainda, espaços institucionais que aceitam apresentar tal abordagem. Acredito que o mercado de produtos audiovisuais está aberto para o homoerotismo, ainda que de maneira tímida. Inevitável dizer que o Mix Brasil tem uma contribuição fundamental para a ampliação desse nicho. Entretanto, é preciso ressaltar o quanto ainda somos caretas para refletir acerca da diversidade sexual, sobretudo no Brasil.

Futuros projetos em mente?
No dia 01 de novembro estou, juntamente com Bernadette Lyra, lançado o livro CORPO E CULTURA, na livraria Futuro Infinito (São Paulo -SP). Este trabalho é resultado de um seminário que foi realizado em outubro de 2000 e agora estamos organizando a sua publicação. Nessa mesma linha de pensamento, estamos preparando o seminário CORPO E IMAGEM para acontecer na ECA/USP nos dias 31/10 e 01/11.

A bailarina Vera Sala em frame de "Domênica"Deixe um recado final para nossos leitores?
É preciso instaurar e subverter o sistema!

 

Assista um trecho de "Domênica" (271 Kb)

 

 

 

l Brócolis VHS - 2001 l video homeless system l